5 coisas para pensar sobre “Narcos”

Quando eu devorei a primeira temporada de “Narcos”, minha maior motivação era assistir ao Wagner Moura num trabalho original da Netflix. Claro que acabei me deparando com um universo muito maior e cheio de coceirinhas pra cabeça.

Apesar de uma série bem feita e com detalhes não usuais, algumas reflexões não saem da minha mente… Então, aqui vão 5 coisas pra gente pensar sobre “Narcos”.

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#Mais um policial branco

Apesar de se estabelecer essencialmente em cima de uma estória colombiana e trazer como personagem principal um latino-americano, a narrativa é toda vivida por trás dos olhos de um estadounidense policial, naquela velha perspectiva de colocar “a grande nação americana” como salvadora e como a grande solução para os problemas globais.

PS: Nem vou falar muito sobre isso, mas um teste: quantas séries com um protagonista que é um homem policial – e branco – vocês já viram?

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#Predominância masculina

Esse detalhe é bem desestimulante em “Narcos”, principalmente pelo reconhecimento e lugar que ocupa na cultura das séries; mas quantas personagens femininas tem suas histórias e construções complexificadas? O quanto elas participam e movimentam o enredo?

Debatendo isso antes de escrever, me questionaram “o quanto realmente as mulheres participaram da estória?” (que, afinal, é baseada em fatos reais). Mas eu acredito que isso não seja uma questão, já que diversos arcos poderiam ter sido escolhidos para aprofundar temas que envolvem a família de Pablo ou mesmo dentro dos personagens fictícios, únicos da série.

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#Falta de exploração do realismo fantástico

A série coloca logo de cara: “há um motivo para o realismo fantástico ter nascido na Colômbia”. Mas ao decorrer dos episódios, pouco disso é esmiuçado. Com a exceção de poucas cenas, em poucos episódios, que pouco elaboram a ideia do realismo fantástico, mais o usam como argumento para uma colocação estética.

Existe sim o argumento de que, por si só, a estória de Pablo Escobar, em toda sua “realidade”, é ao mesmo tempo já mágica, inacreditável. Mas se acharam esse casamento perfeito em questão de enredo, por que não também trabalhar dentro da série com alguns elementos que explicitem essa relação? Afinal, a partir do momento em que virou série, a narrativa deixou de ser tão legítima; logo, as irrealidades também não soam tão irreais.

#O paradoxo da guerra às drogas em Wagner Moura

Essa ideia eu peguei do Lúcio Carobin Machado. Apesar de não necessariamente concordar com todas as passagens do texto, um apontamento me chamou muita atenção: a ideia de que Wagner Moura corporifica a ineficiência da guerra de combate às drogas – uma vez que, em nosso imaginário, ele se torna tanto aquele quem nega, quanto aquele quem afirma. Capitão Nascimento e Pablo Escobar. Dois personagens que acabam se apresentando codependentes já que, institucionalmente, um não pode existir sem o outro.

#Vontade de falar do global, mas  sem nunca abrir mão da hegemonia

Este ponto acho que eu deveria colocar mais como uma crítica – com muito peso – à Netflix, mais do que especificamente à “Narcos” em si. Com cada vez mais narrativas seriadas que se propõem a trazer questões mundiais, é interessante que, somado a isso, a empresa tenha a perspectiva de também abrir mão de certas hegemonias discursivas tipicamente estadounidenses.

Por mais que a trama encontre seu foco na América Latina e por isso atores e atrizes de diversas nacionalidades tenham sido escalados para a estória, talvez existam algumas faltas com representações locais. O quanto uma realidade tão complexa, em termos nacionais, pode ser trabalhada dentro de um narrar?

E assim acontece com “Sense8” também. Uma estória que tem como cenário diversos países do mundo, mas que ficam um pouco vazios de sentido, e que facilmente escorregam pro esteriótipo. Já repararam, por exemplo, que a língua oficial para o contato entre os sense8s é justamente o inglês? Em “Narcos”, é a voz americana quem conta história. Minoria linguística também é uma questão, e é fundamental ser pensada por uma empresa que se posiciona de maneira tão “globalizada” quanto a Netflix.

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“Narcos” já está com a primeira e segunda temporada disponível no serviço ‘on demand’.

É viciado em ficção seriada e em questionar o mundo. Já assistiu todas as séries que você pode imaginar e seu maior interesse está em acompanhar a história por um longo período de tempo e ver personagens crescerem e se transformarem. Não entende o preconceito com a televisão e adora se comunicar com as pessoas.

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