Por que a primeira fase de “Velho Chico” foi mais cativante do que a de “A Lei do Amor”?

Semana passada, estreou a nova novela das 21h da Globo: “A Lei do Amor”!

 

Escrita por Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, a trama – como já vem acontecendo recorrentemente no horário – apresentou sua história a partir de duas fases narrativas distintas: a primeira, em 1996 e, a segunda, nos tempos atuais.
Helô e Pedro, os mocinhos da trama <3
A novela entrou no lugar deixado pela belíssima (embora contraditória) “Velho Chico”, que ousou em sua linguagem e brincou, a todo tempo, com inúmeras maneiras e recursos de se contar a obra proposta – de maneira lúdica e surpreendente.
A poética trama se passava na região norte do país
Em comum, as duas possuem dois elementos marcantes:
1) Tarcísio Meira em seus elencos;
Tarcísio feat. Galinha em “Velho Chico”
Tarcísio feat.Bateu a Bad em “A Lei do Amor”
2) Tramas possuindo mais de uma fase.
#TeamSantoro ou #TeamFagundes ?
E, já que entramos neste assunto das fases, “A Lei do Amor” mostrou uma certa timidez em explorar as situações propostas por seu enredo. Muitos clichês pautaram sua primeira semana de exibição, incluindo de tudo um pouco: de traição armada pelos antagonistas à mocinha órfã, de uma vilã extremamente bem demarcada e cruel até sofrimentos por amor… Uma estreia sem grandes surpresas em uma história que daria margem a muitos conflitos interessantes, se a equipe responsável tivesse aplicado um pouco mais de ousadia narrativa ao roteiro.
Talvez o público não tenha mais paciência para uma trama onde o núcleo central se desenvolva a partir de elementos e signos  já tão recorrentes em telenovelas e que, talvez, convençam em enredos mais leves e adocicados como os das 18h, mas que às 21h padecem de certa complexidade e contornos mais instigantes…
Lá vem o casal apaixonado de novo </3
Assistir à primeira semana de uma narrativa com uma vilã cruelíssima como a Magnólia (Vera Holtz) infernizando a vida de uma ‘quase-adolescente’ e franzina Helô (Isabelle Drummond / Cláudia Abreu) – pasmem, só porque a moça é pobre e se apaixonou por seu enteado, Pedro (Chay Suede / Reynaldo Gianecchini) – talvez não tenha sido o que o telespectador já habituado a temáticas mais rocambolescas e intricadas estivesse aguardando.
Pensando ainda no caso de Magnólia, sob a ótica intrigante de um enredo do horário nobre, é interessante observar que: mesmo sendo rica, cheia dos contatos perigosos e o diabo de peruca loira, ainda assim possuía medo de que uma menina humilde, órfã e sem grandes tatos sociais difamasse sua família e jogasse o nome e o status do clã Leitão na lama.
Assim não dá pra defender, amigos…
Só bebendo para assimilarmos o que está acontecendo.
De bônus, ainda ganhamos a caracterização assustadora de Tarcísio Meira como Fausto Leitão “versão anos 90”, com a pele esticada até não poder mais. Em todas as suas cenas, o personagem surgiu no vídeo com uma textura de tez bastante artificial, o que incomodou alguns dos telespectadores…
Participação Especial: Peruca medonha e legally blonde da Mág
  
Do outro lado da moeda, temos “Velho Chico”. A novela pode ter tido seus problemas e ter sido, narrativamente falando, um tanto quanto demorada – no que tange ao desenrolar de suas histórias. Porém, um dos grandes trunfos do folhetim (e isso deve ser admitido) foram suas duas primeiras fases, que deram conta de apresentar ao público e de construir de maneira satisfatória e eficiente a rixa entre duas gerações familiares, à beira do Rio São Francisco.
  
  
Benedito Ruy Barbosa, Luiz Fernando Carvalho e companhia souberam trabalhar de forma magistral com os elementos que estavam à sua disposição, tendo construído uma narrativa tão forte a princípio que, quando demos por nós, já estávamos enredados e maravilhados com os pombinhos Santo e Teresa (e, como não poderia deixar de ser, já apegados aos seus atores nas versões juvenis, Julia Dalavia e Renato Góes).
“Velho Chico” fazia sentido enquanto história já a partir de suas duas primeiras fases. Era crível, ao mesmo tempo em que lançava mão do lúdico e do misterioso para contar sua trama. Ali, naquele contexto da fictícia cidade de Grotas do São Francisco, fazia-se coerente acreditar no lirismo – e deixar ser levado pela poesia das sequências propostas era quase que um imperativo. Não precisou de muito para ser cativante..!
Já em “A Lei do Amor”, a primeira fase serviu apenas de muleta para a segunda, não tendo sido de grande valia à trama que será contada a partir dessa passagem de duas décadas (a não ser pela cena em que Helô flagra Pedro e Suzana (Gabriela Duarte) na cama, ocasionando na separação definitiva do casal).
No mais, o público acabou não sendo brindado por sequências que explicassem e apresentassem, de fato, outros núcleos do folhetim. Não necessariamente por preguiça dos autores, mas talvez pela tentativa de focar a história no casal principal – objetivando apresentar uma trama mais ingênua e simples de ser compreendida depois do término de sua complexa antecessora no horário.
Elementos clichês, como enredos possuindo mais de uma fase narrativa, por exemplo, sempre irão permear as tramas folhetinescas, e isso é saudável (já que o público está mais que acostumado aos elementos típicos da novela, sabendo como interpretá-los e como interagir com os mesmos).
Porém, e mais interessante ainda, é quando as tramas utilizam-se deles ao seu favor, reapropriando seus significados e surpreendendo o espectador com histórias cada vez mais envolventes. Quando essa combinação de fatores acontece, é só magia!
“A Lei do Amor” está apenas no início, mas estamos torcendo para que a história cative e encante 🙂 Vamos ficar de olho!

O maior noveleiro que você respeita. Tem 22 anos, é canceriano e cursa Estudos de Mídia, na UFF. Televisão, fotografia e livros estão entre suas maiores paixões - junto com farofa e empada, claro. Já foi professor de inglês, participou de um concurso de roteiristas para o G Show e, atualmente, também escreve para o #MUSEUdeMEMES (believe, it’s true <3).

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