Refletindo o mundo pela “Black Mirror”

Após três anos do lançamento do último e exclusivo episódio de natal, “Black Mirror” está de volta. Depois da parceria anunciada com a Netflix, a terceira temporada entrou no catálogo do serviço de streaming pra não deixar a gente esquecer que o futuro já chegou.

Com todo esse tempo passado, meu maior medo para a nova temporada é que ela já não conseguisse provocar e questionar tanto nossas relações (tanto interpessoais, quanto com as tecnologias) quanto as outras conseguiram. Por que esse medo? Eu também não sei; não sei se pelas pessoas estarem preparadas, não sei. Só sei que isso não aconteceu.

Direto para 2016, as novas realidades propostas pela “Black Mirror” não só conseguiram marcar presença, como – enquanto série – perceberam as questões do mundo “não ficcional” (perdão pelo termo). O que quero dizer é que o casamento da melhor série que existe com a Netflix conseguiu formar episódios que se propuseram a pensar os protagonismos, as personagens trabalhadas (a quantidade de personagens negras nesses novos seis episódios é maior do que o resto da série inteira e, finalmente, temos o primeiro casal homossexual protagonista). Por outro lado, o sotaque estadounidense se fez fortemente presente – em marcas mais homogeneizantes.

“Black Mirror” é maravilhosa pelas questões que apresenta como verdade e que a gente não sabe dizer se são ou não. O jeito que é trabalhada a virtualidade do mundo é feroz. Esta questão está já há alguns anos na minha cabeça: qual o contrário de virtual? Não da pra dizer que é real, tudo o que fazemos online ou digitalmente está intrinsecamente conectado com o que vivemos; as pontuações/curtidas que trocamos tem total relação com as vivências para além da tela; os comentários de ódio que postamos e compartilhamos não ficam apenas na nuvem e geram respostas no próprio corpo humano.

Além disso, ficamos tão fechados em pensar o virtual como aquilo que está mediado, que não percebemos que a própria sociedade – esta “material” – carrega enormes virtualidades. Que pedalar numa bicicleta, dar energia a um sistema mediado por telas é virtual, a crença no trabalho para fazer-nos chegar mais longe é virtual, as ideologias que impõe conflitos pelo mundo todo são virtuais. E isso não quer dizer que não são reais.

Um dos grandes trunfos do episódio NOSEDIVE é exatamente colocar visualmente questões que nos perpassam invisíveis. O capital simbólico/social de Bourdieu soaria muito mais violento se estivesse gritante diante de nossos olhos, se os números aparecessem através das lentes com as quais vemos o mundo. O jeito que lidamos ou até olhamos para as pessoas não é tão diferente da forma com que a protagonista os faz, associando a credibilidade e a validade das pessoas aos números que apresentam.

O melhor jogo que o roteiro de “Black Mirror” sugere está muito atrelado a fazer visível o que nos parece invisível, as regras que seguimos como sociedade e que nos parecem naturais. Por que é tão fácil estranhar o virtual, o tecnológico, mas tão difícil estranhar os costumes e o cultural? Por que, em pleno século XXI, ainda estamos achando que as atitudes digitais valem menos do que as atitudes não digitais? O mundo projetado pela “Black Mirror” é o mesmo que essa reflete, mesmo desligada.

Outro ponto fundamental da narrativa da série é a questão da informação. Desde o primeiro episódio lançado em 2009, em que o primeiro ministro britânico tenta conter um vídeo de ganhar os holofotes no YouTube, mas é impossível; até o último desta geração de 2016 – em que, num momento, propõe-se desligar todo o universo online -, fica a pergunta: quem controla a informação?

De um lado, produzimos conteúdo e informações numa quantidade maior do que em qualquer outro momento da história humana. Por outro lado, ficamos com a sensação de que as informações são efêmeras e tudo é passageiro. Mas o rastro está lá, quem disse o que, quem foi aonde, a que horas, tudo isso está em constante armazenamento. E o que nos é causado a partir disso? Para alguns, uma constante obsessão que vem da história inteira de alguém sendo armazenada, os áudios, as fotos, os textos, os vídeos, tudo isso está aí. Para outros, a necessidade de uma atitude, algo deve ser feito em relação ao que é experienciado no mundo virtual. Vale a pena ameaçar, chantagear ou vingar pessoas que deixaram rastros imorais na rede?

O ponto crucial pra mim do êxito em “Black Mirror”, por fim, é traduzido na perspectiva da imagem. Por que o visual nos é tão fundamental? Por que a gente tem que ver pra crer? Por que essa compulsão pela imagem?

Agora, até 2017 (e além), temos que fazer mais e mais perguntas aos 13 episódios já lançados e permitir que encontremos nossos reflexos nas metáforas propostas pela Black Mirror.

É viciado em ficção seriada e em questionar o mundo. Já assistiu todas as séries que você pode imaginar e seu maior interesse está em acompanhar a história por um longo período de tempo e ver personagens crescerem e se transformarem. Não entende o preconceito com a televisão e adora se comunicar com as pessoas.

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