Em “The Crown”, o silêncio é precioso para o roteiro

No início deste mês (11/2016), a Netflix surpreendeu seus assinantes com mais uma produção original chegando ao seu catálogo: a série “The Crown”!

Se enganou quem pensou que a narrativa abordasse as desventuras do emblemático casal Carolina Dieckmann e Marcos Frota, outrora envolvidos em um enlace matrimonial… Mas vai dizer que os atores da produção não estão parecidos com os nossos nesse cartaz aí de cima?! hahaha
A trama, criada por Peter Morgan, gira em torno da vida da Rainha Elizabeth II (Claire Foy), logo após seu casamento com o Príncipe Philip (Matt Smith), em 1947. Passamos a acompanhar a trajetória de Beth ainda como princesa. No entanto, é a partir da morte de seu pai, o rei George VI (Jared Harris) que, aos 25 anos, ela se tornará, precocemente, a soberana de uma gigantesca nação: a Inglaterra.
Diferentemente do que se pode pensar antes de acompanhar a narrativa, a série não é apenas histórica (embora conte com muitos elementos que fazem alusão a situações que realmente aconteceram). Acompanhamos, ao longo de seus episódios, todo o desenvolvimento e amadurecimento de uma jovem que precisa aprender a administrar responsabilidades atém então inimagináveis para ela. E Claire Foy empresta toda sua sensibilidade dramática e cênica para construir uma personagem forte, envolvente e verossímil.
A história presenteia o público com reflexões bastante complexas, oportunas e que dialogam de maneira muito fluida com o que está sendo apresentado na tela. O papel da mulher na sociedade da época vem constantemente à tona, assim como situações que expressam o preconceito de gênero (quando, por exemplo, no episódio da coroação de Elizabeth, o príncipe Philip se recusa a se ajoelhar perante sua esposa, alegando que tal ação o tornaria “menos homem”).
Para seres misóginos da realeza, clamemos:
No entanto, Elizabeth não se coloca em segundo plano e argumenta com o marido que, se ele se ajoelharia a um rei, deve sim uma reverência a ela durante a cerimônia.
Essa é rainha mesmo, em todos os sentidos!
Mesmo ostentando o título de ‘série de TV mais cara da história’ – e com sua primeira temporada tendo sido orçada em impressionantes US$130.000.000,00 -, o que chama a atenção em “The Crown” (e, obviamente, para além dos figurinos, cenários e reconstituição de época de encher os olhos) são as atuações e o roteiro primoroso da narrativa.
Com um elenco afiado, o roteiro, como poucos na cultura televisiva o fazem, concede espaços luxuosos para o silêncio. A falta de palavras não descaracteriza as cenas e as situações propostas pelo enredo, muito pelo contrário: a ênfase narrativa encontra-se, justamente, nestes momentos de pura sensibilidade não-literal.
Momentos cruciais para a história são desenvolvidos desta forma, ilustrando o quão necessária e preciosa pode ser a ausência de diálogos. Primeiramente, o que permanece subentendido pelo telespectador é capaz de ser transformado e reapropriados por eles, como numa espécie de cena interativa (onde o público recebe a relevante incumbência de traçar linhas e argumentos para o que está sendo narrado apenas de maneira visual diante de seus olhos).
Em segundo lugar – e não sei se de forma provocativa-, os momentos em que o silêncio atua como um dos atores de maior destaque são, em sua maioria, aqueles em que esperamos um texto de inevitável qualidade (por serem situações-chave para o desenrolar das sequências).
Como exemplo, pode ser citada a cena em que Elizabeth recebe a notícia da morte de seu pai, somente através do olhar cabisbaixo do marido…
Ou, ainda, quando a Rainha decide tentar se adaptar ao uso da pesada e ornamentada coroa real – e, só aí, percebe sua figura sendo transmutada de ‘mãe-esposa-mulher’ para ‘majestade-soberana-entidade’.
São acontecimentos acertados como estes que garantem à uma trama repleta de opulência (por essência) o seu maior trunfo: a simplicidade.
A primeira temporada completa de “The Crown” já está disponível na Netflix e vale a pena ser maratonada! Ao todo, são 10 episódios com cerca de 55 minutos cada.
God Save the Queen!

O maior noveleiro que você respeita. Tem 22 anos, é canceriano e cursa Estudos de Mídia, na UFF. Televisão, fotografia e livros estão entre suas maiores paixões - junto com farofa e empada, claro. Já foi professor de inglês, participou de um concurso de roteiristas para o G Show e, atualmente, também escreve para o #MUSEUdeMEMES (believe, it’s true <3).

Posts relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.