16 anos de “Gilmore Girls” em Um Ano para Recordar

É curioso pensar que ainda não são totalmente reconhecidas as potências dos fãs. Se partirmos de um raciocínio que colocava o público à mercê dos meios de comunicação, “Gilmore Girls: A Year in Life” vem dar forma à gama de possibilidades que dependem diretamente da ação do ‘fandom’. Afinal, mais de 9 anos se passaram sem um episódio inédito ser lançado, mas a série nunca morreu. Se hoje estamos vibrando com a chance de encontrar nossas personagens queridas mais uma vez, é devido à uma comunidade de fãs que nunca parou de reinventar e rememorar as sete temporadas realizadas e, até além, uma participação que seja no café do dia-a-dia ou na (quando possível) visita aos sets de gravação. As eternas reconfigurações em torno da série permitiram que esse ‘revival’ acontecesse.

Uma coisa que não entendo é por que não ousar além do ‘binge-watching’? Se a série se passa em quatro episódios – com um episódia em cada estação do ano -, por que não deixar a gente sentir junto com as personagens (ou elas com a gente?) a sensação do tempo? Ainda mais com episódios com duração de mais de uma hora e meia. Mas, pensando muito nisso, acho que é essa a forma que os fãs querem. E, depois de tudo, fãs merecem!

SPOILERS A PARTIR DAQUI
 
E o primeiro episódio da série (“Winter”) conseguiu corresponder a esse carinho e saudade. O início, em ‘blackout’, contou com diversas frases marcantes das temporadas anteriores, concluídas em uma nostálgica: “I smell snow” (sinto o cheiro de neve). E, então, acompanhada da marcante música tema, por de trás de uma selfie, surge Lorelai sentada no coreto, esperando por Rory. E numa cena de deliciosa metalinguagem, as duas conversam no melhor estilo “Gilmore Girls” que saudade Amy Sherman-Palladino, até Rory ficar sem ar e ouvir de Lorelai um “Não fazíamos isso há um tempo”.
 
E aí, antes de entrar na história de uma vez, um tour por Stars Hollow conduzido pelas duas protagonistas. Aqui já era lágrimas, o começo no coreto, a questão da neve, até o trovador. E, finalmente, depois da confirmação que Luke e Lorelai ainda estavam juntos, com vinte minutos de episódio, chegamos ao Luke’s Diner. E eu estava morrendo de curiosidade pra saber como ele estaria lidando com esse mundo tão freneticamente tecnológico. E nem sei qual foi minha cara ao ver uma personagem perguntando a senha do wi-fi e o Luke respondendo. Mas tudo pra descobrir que ele passa uma senha diferente e errada pra cada cliente. Além disso, ao lado da placa de “no cell phones”, uma nova placa mais 2016 foi adicionada.
 
 
Ainda na linha das nostalgias, nos reconectamos com os extravagantes festivais da cidadezinha, inclusive um lembrete do leilão das cestas que fez parte do começo da relação entre Luke e Lorelai – mas senti falta de problematização aqui. E os sonhos com o verdadeiro Paul Anka (não o cachorro, mas uma brincadeira recorrente que chegou à atualidade). Na verdade, muitas estratégias das temporadas da outra década foram reapropriadas pra essa nova leva de episódios. Não sei se de forma interessante pela nostalgia ou se soou mais como repetição. De qualquer forma, não ficou tão chamativo assim.
 
E as personagens, onde as encontramos quase dez anos depois?
 
Paris já aparece em sua primeira cena como a médica, advogada, bem sucedida que se tornou. Apesar da vida de nenhuma das personagens estar perfeita (e isso foi uma aposta muito acertiva no roteiro), a uma-vez-inimiga-agora-amiga-íntima de Rory teve dois filhos e construiu um império do qual é dona. O que acho legal já que a outra possibilidade que vejo pra ela era ser assistente de uma grande advogada com moral duvidosa enquanto tem que abaixar a cabeça e lidar com assassinatos.
 

 
Quem não teve tanta sorte foi Lane, a grande decepção da temporada (ainda maior que a ausência de Sookie): a vida da baterista sonhadora continuou a mesma. Seu marido, Zack, acabou de ser promovido e ela –ainda descolada- reclama disso para a melhor amiga, Rory. De tudo o que vemos, sua vida se resume a cuidar das crianças e tocar no “secret bar”. O sonho da banda ainda esta vivo e eles ensaiam, inclusive, já que tem ‘budget’ é apresentada uma música da banda.

Já em relação aos três amores de Rory, as coisas continuaram mais ou menos iguais. Desde o relacionamento (mais estranho que moderno) que mantem com Logan, mesmo ele estando noivo; o que é muito interessante de estar rolando, principalmente porque tem uma ligação simbólica com o momento o qual a jovem (de 30 something) está atravessando. Passando por Jess, que continua distante e reservado, mas com uma conexão incomparável com Rory e capaz de impulsioná-la a se encontrar. Até Dean que, como sempre, não fede nem cheira – nem sei pra que rolou flerte.
 
Outra questão latente dessa nova temporada é perceber as atualizações necessárias ao tempo. Não em questão da trama, mas do modo de fazer e pensar séries, além claro das referências sempre presentes em “Gilmore Girls”. Começando por essas, foi uma delícia ouvir os comentários de Lorelai sobre a programação e personalidades do momento. Como quando assisti às sete temporadas já havia acabado, muita coisa passava por mim ou eu não entendia, faltava o ‘timing’ das referências. Portanto, foi muito bom ouvi-la comentando sobre “Les Revenants”, “Game of Thrones” e “Narcos”, por exemplo.
Também foi a primeira vez que falaram abertamente sobre um relacionamento de Michel em todos esses anos! Por outro lado, fizeram uma ‘mea culpa’ metalinguística ao apresentarem a primeira “Parada do Orgulho Gay de Stars Hollow”, mas que – como antes haviam criticado a série – a cidade não teria pessoas homossexuais o suficiente para comparecer. Ao invés de fazer esse “trocadilho”, mais legal seria ter apresentado um número maior de personagens que complexificassem as questões de sexualidade.
 
 Por ultimo, vale a pena pararmos pra pensar na construção narrativa dos quatro episódios. A personagem de Lorelai aparece como uma alegoria dos conflitos do indivíduo contemporâneo, apresenta-se na primeira parte dizendo que está sentindo sua mortalidade. A sensação do mundo estar acontecendo e ela estar confortável parada, a sensação do “não estou fazendo nada”. Ao mesmo tempo em que com certeza ela tem o direito de querer mais e ir além, essa vontade se expressa como ansiedade – algo com o qual me identifiquei muito.
 
Minha crítica, na verdade, se direcionaria mais para Alexis Bledel do que à personagem a qual interpreta. Em todas as estações do ano, é possível sentir em pelo menos alguma passagem uma não presença em Rory,  e não por conta do roteiro, mas como se a atriz estivesse com preguiça de reviver a série.
 
Em questão de roteiro, o grande conflito do primeiro episódio (e talvez o da temporada) gira em torno de um acontecimento muito triste, a morte de Richard. Mas, como poucas vezes antes havia sido explorado na série, é um longo e bem estruturado flashback que nos faz transitar entre as tristes cenas, e muito emocionantes. A imagem das três mulheres Gilmore no carro indo para o enterro foi forte e muito bonita.
 
 
 
Mas, num apontamento mais técnico, senti a falta de um arco (mesmo que pequeno) para estruturar os quatro episódios, uma linha dorsal; inclusive o falecimento de Richard Gilmore poderia ter sido ainda melhor explorado nesse sentido.
 
Os únicos episódios que diretamente dialogam entre si são o primeiro e o último; o que me levou a pensar: “Amy rainha, Daniel nadinha” (os dois Palladinos). Isso e o desnecessariamente longo, “Stars Hollow The Musical” no terceiro episódio (que passou do ‘timing’ de piada e de reflexão). Apesar de apresentar uma perspectiva interessante sobre a pequena cidade e, ainda mais, sobre a relação de Lorelai com esta, a sequência é longa e repetitiva, perdendo um pouco da força e efeito que poderia ter.
 
Críticas à parte, o resultado final como um todo é muito positivo. Tanto no que condiz com uma temporada feita especialmente para os fãs (tanto os antigos, como os novos), quanto o que condiz com as expectativas – e as quebras – que tínhamos para as personagens. O bom uso do dinheiro na produção também fez crescer em qualidade, tanto em questão de imagem, fotografia e movimentação de câmera, quanto na pluralidade de músicas e brincadeiras que foram possíveis e na quantidade de cenários (bem como as formas que estes tomaram).
 

E se o fim das sete temporadas foi épico e dramático, o revival traz um fim mais sóbrio de uma aflitiva esperança.

É viciado em ficção seriada e em questionar o mundo. Já assistiu todas as séries que você pode imaginar e seu maior interesse está em acompanhar a história por um longo período de tempo e ver personagens crescerem e se transformarem. Não entende o preconceito com a televisão e adora se comunicar com as pessoas.

Posts relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.