O Ano da Ficção-Científica na “Televisão”

Facilmente chegaremos a um acordo de que o ano de 2016 não foi fácil. Começou numa sexta-feira, fingindo ser nosso amigo, mas logo percebemos que ele não estava aqui pra fazer todo mundo feliz. Apesar de muita coisa ruim que o ano trouxe, um gênero teve muito sucesso na televisão e streaming: a ficção-científica.

 

 

Na Wikipédia, Ficção-científica está definida como “um gênero literário desenvolvido no século XIX, que lida principalmente com o impacto da ciência, tanto verdadeira como imaginada, sobre a sociedade ou os indivíduos (…) Este tipo de literatura pode consistir numa cuidadosa e bem informada extrapolação sobre fatos e princípios científicos, ou abranger áreas profundamente rebuscadas, que contrariam definitivamente esses factos e princípios”¹
Claro que isso ainda significa olhar muito superficialmente para as categorias que posicionam certas obras no gênero, ainda mais num mundo em constante aceleração nas transformações tecnológicas; que, por outro lado, conectam-se historicamente a um marco nas origens do gênero na literatura: o momento pós-revolução industrial – que, por sua vez, é um dos pontos marcantes do início desta relação de velocidade progressiva com a tecnologia e os estilos de vida.
Existem diversas estratégias para criar uma ficção-científica. A Wikipédia traz uma descrição das classificações mais planas: são a ficção científica soft como, por exemplo, as séries televisivas “Star Trek” (“Jornada nas Estrelas”), “Battlestar Galactica” e “Doctor Who”, e também a ficção científica hard como, por exemplo, os filmes “2001: Uma Odisseia no Espaço”, “Blade Runner” e “Solaris”; uma separação definida em razão dos métodos pelos quais a ciência foi trabalhada na narrativa.
Porém, é fundamental considerar que há também alguns filmes que se utilizam de temas recorrentes na ficção científica, embora tenham mais características do gênero fantasia; como, por exemplo, a série de filmes “Star Wars”, classificada como fantasia científica e space opera. Essa classificação é ainda muito seca em sentidos, inclusive, imagino, devido à uma vontade de distinção mais iluminista e como sempre somada a preconceitos melodramáticos.
Devemos ter em mente todas as variedades de ficção-científica para pensar as produções seriadas do ano passado.

 

É claro que 2016 não inventou (e nem reinventou) o gênero na televisão. Muitas obras antigas de sucesso – ou não – foram ficções-científicas. E sempre houve um interesse explícito por parte do público. Mas, talvez, 2016 tenha sido um grande apostador neste filão.
No primeiro semestre, três séries do estilo marcaram presença: “Colony”, da USA, onde “para proteger sua família, um ex-agente do FBI aceita a chantagem de colaborar com o governo para derrubar um movimento de resistência crescente na Los Angeles de um futuro próximo”²; e que tem sua segunda temporada estreando essa semana. “11.22.63”, da Hulu, estrelava James Franco,”um professor do ensino médio que viaja de volta no tempo para prevenir o assassinato do presidente John F. Kennedy”³. Esta, não garantiu uma sobrevida.
E, em julho, o fenômeno “Stranger Things”! O suspense scifi, que tem como acontecimento inicial o desaparecimento de um menino e a curiosa aparição de uma menina, foi distribuído pela Netflix e muito bem recebido pela audiência. Um dos grandes hypes do ano, que serve como um ótimo exemplo para essa relação com a ficção-científica estabelecida por 2016.
A série soube utilizar de muitas estratégias já consagradas no gênero, como conspirações de Estado, monstros, estranhas formas de comunicação e habilidades mentais extraordinárias; além de se fincar com unhas e dentes numa estética anos 80, tanto em figurinos, como em trilha-sonora, cenários e, obviamente, enredo.

 

 

“Stranger Things” foi muito bem elaborada para trazer um grande número de identificações e, por isso, não é surpresa o seu sucesso. É um perfeito exemplo dos rumos que a ficção-científica tomou no último ano, tentando expandir sua audiência – do nicho já específico para grandes públicos.
Outro exemplo, quase ótimo, é a série que estreou dois meses e meio depois: “Westworld”. Baseado no livro e filme prévios de mesmo nome, a série se passa em um parque de diversões de temática country, em que os convidados se relacionam com robôs. A partir daí, é permitido matar, estuprar, sair atirando; enquanto alguns desafios são propostas pelos robôs anfitriões do local. Claro que estamos no século XXI e felizmente existem as problematizações: o enredo, na verdade, tem como pano de fundo o parque, mas tem seu início a partir de uma atualização em 15% dos robôs que os faz desenvolver um tipo de memória, gerando uma autorreflexão sobre aquele universo absurdo no qual foram inseridos.
“Westworld” foi muito bem recebida por diversas pessoas. Evidentemente, estamos falando da HBO, com um orçamento de HBO, um tamanho de produção HBO, um canal fechado, mas, de qualquer forma, foi neste gênero que ela decidiu apostar para “substituir” a franquia “Game of Thrones” (seu atual grande sucesso).
Outra questão que apareceu nos primeiros meses de estreia foi a de que “Black Mirror” teria influenciado diretamente a concepção e escolha dessa série por parte da emissora. Eu não acho que as duas estejam desvinculadas, mas mais que uma atuação direta de uma sobre a outra, acredito que as duas sejam parte de um mesmo processo de percepção sobre as possibilidades de se trabalhar o gênero de ficção-científica.

 

Na chamada fall season, a CW lançou “Frequency”, na qual uma detetive, em 2016, descobre que pode se comunicar com seu pai por um dispositivo de rádio – apesar dele ter morrido vinte anos antes, gerando uma série de transformações no tempo atual. A segunda temporada ainda não foi confirmada pela emissora.

Logo em seguida, Showcase e Netflix lançaram em parceria “Travelers”, ambientada num futuro distópico em que algumas pessoas descobrem uma maneira de enviar a consciência de volta no tempo para o século XXI, tentando a partir daí salvar toda a humanidade de uma catástrofe. A série foi renovada.

Também fruto de parceria televisão-streaming, entre BBC America e Netflix, em 23 de Outubro foi colocada no ar “Dirk Gently’s Holistic Detective Agency” adaptação do livro homônimo de Douglas Adams (autor de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”). Nesta história, um detetive e seu recém-conhecido amigo Todd investigam um caso que envolve acontecimentos sobrenaturais, coincidências inexplicáveis e personagens excêntricos.
Fica perceptível a esse ponto que apesar de as ficções-científicas estarem expandindo em público (ou, ao menos se desprendendo dos limites do nicho), ainda é muto mais simples para os serviços por assinatura, e ainda mais quando online (caso da Netflix e Hulu), apostarem em produções desse tipo. A maioria das séries do gênero que chegaram à uma confirmação de segunda temporada, recentemente, ou são inteiramente produzidas por serviços de streaming ou tem uma parceria com algum deles.

 

Isso fica explícito nas três séries do gênero lançadas no final do ano, todas pertencentes à Netflix. No caso de “Black Mirror“, isso é ainda mais gritante – a série está viva desde sua primeira temporada, com apenas três episódios lançados em 2009. A segunda temporada só conseguiu ter seus três episódios estreando em 2011 e, em 2013, apenas um episódio “especial de natal” foi ao ar. Foi apenas em parceria com a Netflix que, em 2016, uma oficial terceira temporada foi produzida com seis episódios e uma quarta confirmada com mais seis.
E foi uma explosão de reações nas redes sociais, mais uma série que entra para os hypes do ano e deixa o legado do péssimo meme “isso é muito black mirror, meu”. Interessante perceber que não só a terceira temporada leva esse crédito. Por mais que o lançamento de uma nova leva de episódios com certeza trouxe o assunto mais intensamente nas esferas públicas, é curioso perceber que sete episódios já existiam há, no mínimo, três anos, e também foram muito aproveitados. Por que só agora?
No mais, acerca das expressões do gênero ficção-científica, a série antológica é uma das produções (não só falando em televisão) que mais consegue trabalhar a união de uma nova tecnologia às críticas sociais necessárias. Em “Black Mirror”, as tecnologias são alegorias de hábitos e ideais que movimentam a sociedade e têm nesses “apetrechos” uma forma de se tornarem tangíveis.
Por fim, no último mês do ano, com uma (nem tão grande) divulgação, a Netflix colocou no catálogo “The OA”; Prairie Johnson é uma garotinha cega que desaparece. Sete anos depois, ela retorna, com a visão perfeita. A jovem tenta explicar aos pais o que aconteceu durante a sua ausência. E nessa série, uma outra abordagem para o tratamento da ficção-científica se manifesta: as possíveis conexões com a ciência.
The OA chegou a me incomodar (nem todo incômodo é ruim) por colocar em contraste duas ideias que foram discursivamente separadas com força na nossa sociedade: ciência e fé. ‘Fé’ para não falar religião, mas muitas são as referências à religião colocadas diante de nossos olhos. É que vai além.

Isso é o que soube aproveitar da ficção-científica; a série vai além e, em muitos pontos, segue em direções variadas, mas enxerga longe sem perder as conexões.

 

 

Chegando quase na contagem regressiva pro novo ano, tendo que dividir o dia da estreia injustamente com o revival de “Gilmore Girls“, foi lançada no mundo todo a primeira série brasileira original da Netflix: “3%” – já confirmada para uma segunda temporada. (veja o trailer)
Em um futuro pós-apocalíptico não muito distante, o planeta é um lugar devastado. O Continente é uma região do Brasil miserável, decadente e escassa de recursos. Aos 20 anos de idade, todo cidadão recebe a chance de passar pelo Processo, uma rigorosa seleção de provas físicas, morais e psicológicas que oferece a chance de ascender ao Mar Alto, uma região onde tudo é abundante e as oportunidades de vida são extensas. Entretanto, somente 3% dos inscritos chegarão até lá.
Uma das críticas internacionais que li sobre a série, refletia exatamente a apresentação de uma perspectiva distópica e scifi fora do eixo global comum, uma narrativa com um olhar do hemisfério sul. E, ao pensar a ficção-científica, isso se faz muito presente; na abordagem do gênero por essa série, muito recai sobre a sociedade e menos atenção é colocada em novas e surpreendentes tecnologias.
Dentro da história, mais é pensado sobre o que a humanidade decidiu fazer frente às novas descobertas tecnológicas do que simplesmente colocá-las diante de nossos olhos. Não que isso fique de fora, diversas “novas tecnologias” são mostradas, apenas não são o foco.
Na matéria de Gabriela Sá Pessoa para a Folha, ela propõe, através da fala de Erik Barmack, que a empresa já tinha a percepção do gosto dos brasileiros por ficção-científica e fantasia, o que não significava que encomendariam algo do gênero necessariamente, porém, quando a ideia chegou até ele, encaixou perfeitamente.

 

 

Talvez, 2016 tenha realmente marcado de alguma forma. Várias dessas tramas ainda vão nos acompanhar por um tempo, talvez novos frutos saiam dessas criações, novas reflexões e criações.

Talvez, 2016 não tenha sido tudo isso, seja simplesmente mais um passo de uma trajetória já há muito tempo construída. Vamos ver!

É viciado em ficção seriada e em questionar o mundo. Já assistiu todas as séries que você pode imaginar e seu maior interesse está em acompanhar a história por um longo período de tempo e ver personagens crescerem e se transformarem. Não entende o preconceito com a televisão e adora se comunicar com as pessoas.

Posts relacionados

2 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.