Amor é amor, o lance é o lance e “Os Dias Eram Assim” não é série, mas uma novela

O mês está sendo de grandes estreias para a Globo, no quesito Teledramaturgia. Depois de “Novo Mundo” e a “A Força do Querer” terem dado um necessário frescor às faixas das 18h e das 21h, respectivamente, eis que estreou – rodeada de expectativas – a nova trama do horário das 23h da emissora: “Os Dias eram Assim”.

Ambientada, em sua primeira fase, na década de 1970, acompanhamos a trajetória dos pombinhos Alice (Sophie Charlotte) e Renato (Renato Góes). A garota é filha do conservador empreiteiro Arnaldo Sampaio (Antonio Calloni) – cuja empresa possui conchavo e certas alianças políticas com o governo ditatorial instaurado. Já o rapaz é um médico idealista, engajado com as correntes que pregavam a liberdade, igualdade e a justiça acima da legitimidade de políticas falhas no que se refere a errada governabilidade da época.
Em suma: um Romeu & Julieta moderno, né, gente?

 

Amor proibido, ui ui ui
Ao longo dos capítulos, Renato terá de sair do Brasil e cumprirá exílio no Chile. O que o médico não conta é com a desistência da amada em embarcar junto com ele, decidindo permanecer no país.

No exterior, Renato conhecerá a também médica Rimena (Maria Casadevall), por quem se apaixonará. No entanto, e com a passagem de tempo da novela já para os anos 1980, durante a Anistia, Renato retorna ao Brasil e seu sentimento por Alice reacende (algo típico em vários dos Romances folhetinescos já tão difundidos por aí), complicando sua relação amorosa com a estrangeira.

Renato e Rimena, nome de dupla sertaneja

 

Um tanto quanto previsível… Mais clichê do que triângulo amoroso separado pelas águas do tempo impossível, não?

E esse é o enredo que funciona como o grande mote da trama escrita pelas estreantes Ângela Chaves e Alessandra Poggi para o horário. No entanto, mais do que as histórias colocadas em pauta pelas escritoras, chamou a atenção o fato da Globo ter rebatizado os produtos teledramatúrgicos das 23h como ‘superséries’, ao invés de ‘novelas’.
Até a Wikipédia ficou em dúvida sobre o formato da narrativa…

Afinal de contas, o que seria uma supersérie? Por que será que a emissora decidiu sumir com a denominação ‘novela’ para obras desta faixa?

 


#Atenta

 

Sabemos que as séries – dentre vários outros formatos audiovisuais – vêm angariando cada vez mais espaço por entre o público nacional (em especial, os jovens). Prova disso são os números crescentes de downloads daquele episódio perdido durante a semana, as assinaturas cada vez mais comuns de serviços de streaming, como a Netflix (que apresenta em seu catálogo um repertório sortido de séries – originais ou não), a variedade de blogs e fóruns que se propõem, somente, a discutirem obras do gênero e um mercado mais receptivo a histórias que se desenrolem de maneira rápida, prática e em poucos episódios (devido à rotina cada vez mais corrida do brasileiro).

O horário das 23h foi criado em 2011 e dedicado, inicialmente, a remakes dramatúrgicos de grandes sucessos do canal. O primeiro deles foi o reboot de “O Astro”, sendo seguido pelas novas versões de “Gabriela” (2012), “Saramandaia” (2013) e “O Rebu” (2014). Já em 2015, houve a transmissão da primeira trama original da faixa, o fenômeno “Verdades Secretas”. Em 2016, a tendência de narrativas ainda não apresentadas ao público manteve-se firme e forte e fomos apresentados à envolvente história de Joaquina (Andréia Horta), em “Liberdade, Liberdade”.
Devo confessar que me incomodou – e muito – o fato desta mudança de nomenclatura pela emissora, que repercutiu até mesmo no aplicativo Globo Play e rebatizou todas as anteriores  ‘novelas das 11’ como, pura e simplesmente, ‘séries’. Gente, para, tá feio..!
“Os Dias Eram Assim” não engana. É uma novela siiiim! Possui abertura e créditos finais, variados núcleos cênicos, tramas e clichês típicos dos mais famosos dramalhões mexicanos e contará com, aproximadamente, 90 capítulos constituindo seu enredo.
 Pessoal, se estes pontos não compõem uma típica estrutura novelística, nem sei mais quem eu sou.

Vou viver pelo resto dos meus dias não ligando mais pra nada e dançando despretensiosamente como bem fez Regininha Duarte, no Castelo de Caras.

 

É muito triste quando fatores assim ocorrem, ainda mais com um gênero apontado, por muitos, como à beira da extinção como vem sendo tratado o da teledramaturgia – dentro de alguns anos e a partir das mudanças nos hábitos de consumo e de lazer dos telespectadores.
Produtos reconhecidos por suas inenarráveis qualidades técnicas, como “Verdades Secretas” e “O Rebu”, por exemplo, contariam muitos pontos a favor da ideia de que os folhetins podem e conseguem se renovar com qualidade, e sem perder seus traços característicos já tão difundidos em outras épocas. Além disso, 2 das histórias internacionalmente premiadas pelo Emmy de melhores narrativas estrangeiras são produtos desta faixa noturna – “O Astro” e “Verdades Secretas”.
Dito isto, aproveito para reiterar a importância que o formato possui para nós e para nossa realidade. É a partir das novelas que lançamos moda, que nos projetamos num dado personagem ou cotidiano, que conhecemos outras culturas, que desenvolvemos nosso primeiro contato com narrativas audiovisuais, que nos encantamos com as músicas que compõem suas trilhas sonoras (inclusive, muitas das vezes, descobrindo novos artistas e/ou canções)…  É com elas que nosso dia a dia ganha mais cor, mais vida e mais representatividade.
Infelizmente, com “Os Dias eram Assim”, perdemos uma faixa dedicada a excelentes tramas folhetinescas para um horário onde figuram produtos mascarados como séries sem qualquer traço deste gênero audiovisual – objetivando, como bem se pôde constatar, a audiência de um maior percentual do público que está em casa no horário.
Realmente uma pena os dias serem assim.
(Frase de impacto para dar aquele tchan final).

O maior noveleiro que você respeita. Tem 22 anos, é canceriano e cursa Estudos de Mídia, na UFF. Televisão, fotografia e livros estão entre suas maiores paixões - junto com farofa e empada, claro. Já foi professor de inglês, participou de um concurso de roteiristas para o G Show e, atualmente, também escreve para o #MUSEUdeMEMES (believe, it’s true <3).

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9 Comentários

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