Entenda a treta entre ‘Simba’ e as operadoras de TV por assinatura – por Léo Sales

 

A questão, amigos, é mais simples do que parece. Desde o último dia 29, data do desligamento do sinal analógico em São Paulo e região metropolitana, se iniciou uma disputa entre gigantes.
Simba entrou com força na briga contra as operadoras

 

O babado é que com a chegada do sinal digital, Rede TV, Record e SBT formaram uma joint-venture (um empreendimento conjunto) chamada Simba, para negociar o valor que querem receber por assinante das principais operadoras de TV paga.
A Simba nasceu!!!!
Antes, essas emissoras não recebiam um só cascalho furado das empresas pela disponibilização do seu sinal para as operadoras. Era um bom negócio na TV analógica, pois os satélites da TV paga levavam as emissoras a lugares onde o sinal era ruim, logo boa parte dos espectadores desses três canais vinha dos assinantes que pagam para assistir TV. Além disso, existia uma obrigatoriedade do carregamento desses canais na era analógica, mas que não existe mais na era digital.

Em tempos de crise, as emissoras vendo que Globo e Band recebiam pelos seus sinais digitais (por negociá-los em um pacote que contém canais importantes exibidos só na TV por assinatura) , decidiram buscar uma nova fonte de receita cobrando pelo seus belos e definidos sinais digitais das operadoras Net, ClaroTV, Oi TV e Sky.

BICHA PAGUE O MEU DINHEIRO!!
Acontece que as operadoras alegam não existir a possibilidade de negociação desse valor e o resultado disso é que há quase um mês, as emissoras da Simba não recuaram e desligaram os seus sinais dessas operadoras, se despedindo de cerca 15 milhões de assinantes e de espectadores fundamentais para quem entra com a grana, o anunciante. Ainda que as negociações tenham avançado, como apurou o jornalista Ricardo Feltrin em sua coluna no site UOL, aparentemente essa novela ainda vai ter alguns capítulos.

 

O que  podemos observar nesse quase mês de ausência da RedeTV, do SBT e da Record do line-up dessas operadoras, além de uma queda de audiência dessas emissoras, foi o aumento dos números da Band e da Globo, mostrando mais uma vez que o assinante de TV paga ainda assiste muito aos canais abertos. Só os 3 canais formadores da Simba tem cerca de 20% da audiência na TV paga. Como exemplo da oscilação dos números em SP podemos observar a faixa da tarde, aonde o jornalístico “Balanço Geral”, exibido na Record, ameaçava diariamente a liderança do “Vídeo Show”. No dia 22/03, uma semana antes do desligamento, a Globo marcou 9,7 contra 9,0 pontos do “Balanço Geral”, ganhando por pouco, muito por conta da boa audiência que o programa recebe do “Jornal Hoje”. Já uma semana depois do desligamento, a Globo emplacou 11,6 pontos contra 6,5 da concorrente Record, quase o dobro. Isso fez o sinal vermelho acender entre as emissoras e os anunciantes da Simba, pois esses números representam a situação somente em SP, mas a queda pode se estender a todo Brasil, com a continuidade do desligamento do sinal analógico.

Simba vendo os resultados de audiência pós-desligamento
Num primeiro momento, logo após o desligamento, a leitura feita é que todo mundo sairia perdendo. Com as emissoras investindo forte numa campanha institucional que envolve os seus maiores valores artísticos, a ideia era que os telespectadores da TV paga sentissem falta e sintonizassem pela TV aberta RedeTV, Record e SBT ou cancelassem seus planos, diminuindo assim a audiência da TV paga e por fim, pressionando as operadoras.

 

O problema é que esse plano não se concretizou e a pressão por ignorar um público importante para o anunciante chegou às emissoras da Simba, fazendo com que as negociações se tornassem mais brandas por parte dessas emissoras. A maioria dos comentários na internet, da conta de que muitos espectadores acabam assistindo mais TV aberta dentro do line-up da paga por uma  questão de hábito, mas são muitas as críticas dos telespectadores que não se sentem respeitados pelas inúmeras mudanças de grade do SBT ou pela venda massiva de horários para as igrejas evangélicas na Rede TV e na Record. Isso pesou totalmente para as emissoras, que adotaram outra postura nas negociações. Segundo jornalistas especializados, as operadoras Vivo, NET e Oi estão chegando perto de um acordo com as emissoras. Um dos elementos oferecidos pelas emissoras às operadoras é a criação de três novos canais, exclusivos para TV paga, já que para a permissão da criação da joint-venture, a empresa se comprometeu a investir o dinheiro da remuneração dos canais em produção.

A Simba ficou meio tristinha com as negociações ):

 

As três emissoras gastam rios de dinheiro com suas produções e têm uma fatia importante do bolo de audiência na TV aberta, o que justificaria a cobrança do sinal digital para as operadoras de TV paga, um setor que, diferente do de TV aberta, só cresce no país – mesmo com alguma perda de assinantes nos últimos anos. O mercado televisivo no nosso país tem um cenário não muito comum, com uma diferença grande entre a Globo e as outras emissoras e acredito que o esforço da Simba é em diminuir essa distância em alguns aspectos (e isso é muito bom).

 

Não existe motivo real para as operadoras não remunerarem as emissoras, ainda mais pagando Globo e Band, caso a Simba cumpra com a determinação de produzir conteúdo e canais com esse dinheiro. Mas não vai adiantar receber este investimento e continuar loteando a grade de reprises, caça níqueis e programação religiosa. Isso diminui cada vez mais o prestígio dessas emissoras com os anunciantes e também com o público que está mais do que sufocado com boas opções de programação, na TV paga, na TV aberta e nas plataformas de streaming. Os próprios (bons) realities do SBT e alguns da Record tem uma segunda janela de exibição na TV paga muito próxima da primeira, em busca da viabilização da produção. Continuando assim, capaz que nem público e nem operadoras sintam muita falta dos canais da Simba quando o desligamento do analógico ocorrer em todo Brasil e isso pode custar caro para as emissoras. Uma pressão semelhante, feita pelo Grupo Fox (que retirou seus canais da Sky por conta da sua remuneração paga por eles), só foi vencida pelo grupo devido ao seu conteúdo, que fez com que os assinantes protestassem pela volta dos canais nos seus pacotes.

 

A ABTA (Associação Brasileira de TV’s por assinatura) se pronunciou uma só vez, através de seu CEO, antes do desligamento, justificando que o valor (que já foi especulado na imprensa com entre 15$ e 2,30$) só poderia ser pago caso o mesmo valor fosse repassado ao assinante, o que está fora de cogitação pelas operadoras. Logo, segundo a ABTA, se as emissoras insistirem na remuneração, ficarão de fora dos line-ups. Isso mostra a forma com que as operadoras se relacionam com as emissoras abertas, ainda responsáveis pela maior parte da audiência na TV paga. Será que as operadoras remunerariam a Globo caso ela fosse negociada de forma independente dos canais Globosat, outra parte importante da audiência da TV paga? E a Band? No caso da Globo acredito que sim, pela fatia de audiência abocanhada pela emissora, mas não fosse a BandNews, BandSports e o Arte 1 acredito que o Grupo Bandeirantes também ficaria a ver navios. Sabendo disso, inclusive, a Band posicionou todo seu jornalismo à favor das operadoras em contraponto às emissoras da Simba, como a Rede TV, que deixou as polêmicas dos famosos  de lado no glorioso Superpop, para ensinar o telespectador a cancelar seu pacote de TV paga.

 

A novela ainda não chegou nem no capítulo 100, então enquanto esse artigo é publicado, esperamos que as emissoras possam ter chegado a um acordo com as operadoras.  Apesar das críticas, os três canais têm em sua grade programas de qualidade e que o público da TV paga, que mudou muito nos últimos dez anos, gosta de acompanhar, mas não pode. Enquanto isso, o Grupo Globo parece ser o maior beneficiado com a saída desses canais da TV paga. Além de ver sua audiência subir discretamente na TV Globo, os canais Globosat também devem ganhar algum acréscimo em audiência, muito pela programação generalista que apresentam, semelhantes aos canais saídos da TV paga.

 

Imagens da reunião entre a Simba e a Sky (prometemos ser a última vez que faremos trocadilhos com “O Rei Leão”)
Pro futuro, a Simba tem planos ambiciosos e aposta no streaming como uma das ferramentas de enfraquecimento do modelo de negócio atual das TV’s por assinaturas. A empresa anuncia que além de negociar os canais (abertos e os novos fechados) pretende investir em uma plataforma semelhante ao Globo Play para atender a uma demanda que promete diminuir a dependência da TV paga para distribuição do conteúdo produzido. A nós, telespectadores, pelo visto – e como em uma novela – só nos resta aguardar as cenas dos próximos capítulos, já que nessa cadeia alimentar dos negócios televisivos a impressão que fica é que o público é quem menos importa.

Joga um charme Simba, pode ser que ajude nas negociações!
 

É viciado em ficção seriada e em questionar o mundo. Já assistiu todas as séries que você pode imaginar e seu maior interesse está em acompanhar a história por um longo período de tempo e ver personagens crescerem e se transformarem. Não entende o preconceito com a televisão e adora se comunicar com as pessoas.

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