Qual late night eu assisto? – por Léo Sales

Quando o standup comedy ganhou espaço nos teatros brasileiros já se imaginava que o próximo passo seria a disseminação na TV do late-night show ,expressão em inglês usada para denominar os talk shows apresentados por humoristas nos fins de noite. Depois do sucesso alcançado com o extinto “Agora é Tarde com Danilo Gentili”, na Band em 2011, Jô Soares que reinou do final dos anos 80 até 2016 como único apresentador do gênero no país viu o seu número de colegas aumentar significativamente, visto que as emissoras decidiram investir de vez no gênero. São tantos late nights diferentes no ar, que a pergunta que fica é: “qual deles vale a pena assistir?”


MONÓLOGO DE ABERTURA


 
O momento aonde os humoristas abrem o programa é um clássico do gênero. Todos experientes com stand-up comedy, os apresentadores trazem um pouco da sua visão para os acontecimentos do dia-a-dia. O THE NOITE foca bastante em assuntos políticos, demarcando a posição editorial do programa. Apesar da zoeira com tudo e todos, Danilo Gentili já entendeu com quem está falando há bastante tempo: o público muitas vezes contrário ao humor tido como de “esquerda” e faz os mesmo comentários que seus telespectadores mais assíduos fariam no seu Facebook. O PROGRAMA DO PORCHAT pega mais leve, apesar de também comentar bastante política. Já o LADY NIGHT usa e abusa da verve anárquica de Tatá Werneck, que usa os momentos quase como uma esquete de abertura e muitas vezes usando de humor para debochar da apresentadora e do canal.



CONVIDADOS


 
Convidados são parte fundamental de um late night. Dispostos a participar das brincadeiras que muitas vezes ironizam os próprios artistas e as suas carreiras, eles funcionam quase como um tema para as edições desses programas. Nesse aspecto, o PROGRAMA DO PORCHAT e o THE NOITE saem perdendo em relação aos globais LADY NIGHT e ADNIGHT, que contam com todo elenco da Rede Globo + todo o resto do showbiz com muita facilidade e  são apresentados por temporada, facilitando o trabalho de trazer bons convidados. Por serem diários, os late-nights do SBT e da Record, com o esgotamento das estrelas da emissora, volta e meia apelam para entrevistas de gosto duvidoso para completar a semana de exibição.
BRINCADEIRAS
Também não é só escalar boas estrelas para as entrevistas. Boa parte da graça de um latenight está nas brincadeiras que permeiam a entrevista. São elas que viralizam na internet e mostram a tal “desconstrução” da entrevista séria que um artista daria num talk show mais sério, como o “Conversa com Bial”. O ADNIGHT contou com todo aparato técnico da Globo para criar essas brincadeiras e me lembro de poucas que realmente tenham funcionado. O LADY NIGHT aposta em várias “Tatázisses” para brincar com os convidados, jogos de improvisos e musicais já presentes em vários programas que Tatá apresentou na carreira. Os quadros divertem, mas por se repetirem quase em todos episódios causam um certo cansaço e não teriam fôlego durante muito tempo no ar. Já no PROGRAMA DO PORCHAT os quadros de maior repercussão do programa são justamente as brincadeiras. No THE NOITE, apesar do clima remeter sempre àquela zoeira do fundão na escola, a equipe afinada do show também se desdobra e apresenta boas brincadeiras.


ENTREVISTAS
 
 
Levando em consideração que o foco do formato é no humor e não nas grandes entrevistas, os quatro trazem toda a graça de si para entrevista. No THE NOITE, a forma debochada que Danilo Gentili faz as entrevistas lembra as reportagens do CQC em que ele era capaz de perguntar as maiores atrocidades com a mesma cara de paisagem – e, fora uma pergunta ofensiva ou outra, o humorista já encontrou o seu tom e leva bem as entrevistas. Tatá Werneck e Fábio Porchat trabalham juntos no Multishow e apesar de fazerem entrevistas muitas vezes sem sentido nenhum, ambos chamam atenção pelas perguntas que tem coragem de fazer nos seus respectivos LADY NIGHT e PROGRAMA DO PORCHAT. O ADNIGHT, apesar da intenção de desconstruir seus convidados globais, ainda ficou extremamente engessado na primeira temporada, não possibilitando que as entrevistas não tão reveladoras, comum nos programas do gênero, fossem salvas pelo humor.


E AÍ?


Se essa análise te deixou ainda mais confuso, não se desespere, é normal. Os programas, apesar de muito semelhantes entre si, carregam o DNA de seus apresentadores no conteúdo de uma forma muito marcante. No THE NOITE, Danilo Gentili busca trazer tudo o que o seu público deseja. Com uma audiência formada principalmente por jovens, ele não teme em usar a mesma linguagem do público para fazer graça e acabou consolidando os fins de noite do SBT, algo digno de nota, dada as inúmeras mudanças na programação da emissora. O programa apresenta quadros engraçados como o “Leite Show” e o “Adultos com voz de criança só porque é engraçado”, mas, frequentemente, apela para piadas ofensivas, buscando atingir diretamente o público que foge do tal “politicamente correto”, o que muitas vezes compromete o resultado final.
 
O ADNIGHT teve uma primeira temporada fraca, mas a segunda temporada, já encomendada pela Globo, buscará corrigir os erros do programa. Essa é uma vantagem do programa de temporada, já que é mais difícil mexer em um produto que está no ar. Adnet é quem tem mais repertório entre os seus colegas e sem ter que fazer um programa tão chapa branca, provavelmente vai se destacar.

Já Fábio Porchat quer trazer o seus milhões do “Porta dos Fundos” para a TV e levar as centenas de milhões da TV para seus filmes e vídeos com o PROGRAMA DO PORCHAT. Porchat deita e rola sem medo de se descaracterizar para tornar-se um comunicador popular.

O LADY NIGHT é uma grata surpresa, principalmente por ser o primeiro programa solo de Tatá. Usando e abusando dos seus recursos humorísticos, Tatá é quem faz a entrevista mais despretensiosa. Sabendo que não faz a melhor entrevista, ela brinca com os clichês dos próprios late-nights, tornando o programa uma espécie de sátira do formato. O “Entrevista com Especialista” é das coisas mais bem sucedidas do programa, renderia até uma edição mais longa.
 
Os quatro programas cumprem bem a proposta de apresentarem entrevistas, que ainda que sejam nada profundas, divertem o convidado e quem está em casa. A principal diferença entre eles está nos apresentadores, expoentes da “nova geração” que chegaram na TV há mais ou menos cinco anos e agora se consolidam como figuras importantes para as emissoras. Ainda que pudessem elaborar melhor as brincadeiras em alguns ou potencializar o uso da banda, por exemplo, os quatro late-nights usam bem a sua melhor ferramenta, que é o humor, para encerrar as noites da TV. Mas que o Jô faz falta, ahh ele faz!
 
SERVIÇO

Lady Night
Multishow, 22h30 (1ª temporada encerra nessa sexta, 12/05)

The Noite
SBT, 00h15

Programa do Porchat
Record, 00h15

Adnight
Globo, segunda temporada no segundo semestre

O maior noveleiro que você respeita. Tem 22 anos, é canceriano e cursa Estudos de Mídia, na UFF. Televisão, fotografia e livros estão entre suas maiores paixões - junto com farofa e empada, claro. Já foi professor de inglês, participou de um concurso de roteiristas para o G Show e, atualmente, também escreve para o #MUSEUdeMEMES (believe, it’s true <3).

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