Você também é refém da Netflix?

Todo mundo conhece aquela pessoa que passa horas e horas assistindo a séries e filmes na Netflix. Esse texto não é para essas pessoas. Chega de textos com o “uso excessivo” de tecnologias como forma de diagnóstico. Quem quiser visitar diversos mundos, por horas, tem mais que o fazer mesmo!
Agora, e quando você SÓ pede indicações de produções audiovisuais que “estejam na Netflix”?
“As transformações que a Netflix trouxe são diversas”. Apesar de muitas pessoas concordarem com isso, as duas maiores mudanças – ao meu ver – construídas pela empresa são as que tangenciam uma experimentação dos modelos de distribuição audiovisual capitalizável na “era digital” e a atenção aos conteúdos simbólicos os quais produzem.
No que se refere ao segundo ponto, realmente a Netflix se posiciona constantemente como pensante de suas representações e como tais podem/devem construir o mundo. Já sobre o primeiro aspecto, qual setor da sociedade tem os interesses atendidos a partir dessa “grandiosa” percepção?
Vale a pena ressaltar que tais transformações não são decorrentes da Netflix, não são revoluções, mas, sim, parte de um processo longo (e de necessidade óbvia) que, entre seus galhos, tem a empresa de streaming. A Netflix está inserida no contexto, e não o contrário.

A outra opção de acesso existe há bem mais tempo do que é oferecido o sistema de streaming pela empresa: chama-se download. Era assim que conseguíamos os episódios das séries que saíam fora do país e iam demorar meses pra chegar, como também era assim que podíamos decidir quando gostaríamos de assistir e ao que assistiríamos.

Além disso, ou melhor, em torno disso, formaram-se grandes coletivos de pessoas de diversos lugares do país, que se juntavam para uploadar episódios, fazer legendas (muitas vezes no mesmo dia em que as séries iriam ao ar), recolocar arquivos no ar depois que alguns eram retirados pelos “donos”, e por aí vai.
Em uma fala para o Festival Internacional de Televisão de Edimburgo, em 2013, Kevin Spacey disse:”dê às pessoas o que elas querem, quando elas querem, na forma que elas quiserem, a um preço justo e é mais provável que paguem por isso do que roubem”.

Clearly the success of the Netflix model, releasing the entire season of House of Cards at once, proved one thing: the audience wants the control. They want the freedom. If they want to binge… we should let them binge…. And through this new form of distribution, we have demonstrated that we have learned the lesson that the music industry didn’t learn: give people what they want, when they want it, in the form they want it in, at a reasonable price and they’ll more likely pay for it rather than steal it. Well, some will still steal it, but I think we can take a bite out of piracy.

Em muitos pontos isso se mostrou verdade. Por outro lado, não vamos fingir que todo mundo pode e tem Netflix. E o que começa a ficar preocupante, com essa cultura do streaming que vai se moldando em torno de uma empresa, é que o “controle” que a audiência tanto almeja por decisão dentro da programação acabou enfraquecendo. Quantas séries e filmes a gente deixa de assistir por não estar no catálogo da Netflix, quantas a gente só assiste porque estão?
“Ah, mas Westworld eu baixei”. Esse é meu ponto, isso não é descobrir algo novo ou realmente se permitir ir além. Nem se compara àquela série pequena que uma amiga te indicou que pouca gente vê e nem tem com quem comentar, mesmo sendo maravilhosa. Você conhece essa sensação?
Não é uma crítica ao uso da plataforma, quem já leu textos meus sabe que sou, inclusive, um grande fã. Enquanto ela nos pode facilitar é muito bom, que ótimo ver que tal série está na Netflix. Mas é uma crítica à acomodação, o de só conhecer o que ela oferece; ao único contato ser através dela.
A empresa achou um ótimo jeito de capitalizar a partir do digital; mas nos afastou de uma cultura da pirataria que tinha outros planos para como as informações deveriam circular, como elas seriam cobradas e como deveriam se dar suas formas de distribuição – principalmente, em seu aspecto de produção não privada. E isso vale a pena ser pensado.

 

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Você pode assistir ao vídeo do Kevin Spacey no Festival Internacional de Televisão de Edimburgo e ler uma outra reflexão sobre pirataria clicado aqui: Techdirt.

É viciado em ficção seriada e em questionar o mundo. Já assistiu todas as séries que você pode imaginar e seu maior interesse está em acompanhar a história por um longo período de tempo e ver personagens crescerem e se transformarem. Não entende o preconceito com a televisão e adora se comunicar com as pessoas.

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