A trilha sonora de “The Handmaid’s Tale” e sua função psicológica

Vamos dar aquela respirada em conjunto antes de adentrar o mundo de “The Handmaid’s Tale“?

A série foi transmitida pelo canal de streaming Hulu, produzida por Bruce Miller, e é baseada no romance homônimo de 1985 de Margaret Atwood. Trata-se de um futuro distópico em que as taxas de fertilidade caem rapidamente, impedindo que novas vidas sejam geradas e colocando em risco a taxa de natalidade. A solução encontrada por figurões poderosos e inescrupulosos – entre eles, Fred Waterford? Criar a República de Gilead, pautada em um regime totalitário e falsamente cristão, onde existem servas (escravas sexuais) e famílias que buscam procriar a qualquer custo através delas.

Vamos a um breve resumo!

 

Diversas mulheres consideradas férteis são sequestradas e enviadas para Gilead, onde devem abandonar quem são para se tornarem servas. Elas têm uma líder, a tia Lydia, quem as ensina tudo que devem saber e como devem se comportar, de maneira nem um pouco delicada – aliás, tudo nessa série é forte e te deixa bastante impactado. A protagonista se chama June, mas vive sob o nome de Offred. Todas elas são obrigadas a abandonar seus nomes reais e a viverem sob os nomes dados por cada lar  – caso sejam substituídas de casa, elas passam a adotar o nome da casa que irão seguir. June vive na casa do Comandante Waterford e sua esposa, Serena, e foi separada da filha e de seu marido, que acredita estar morto.

Um ritual ocorrente que embrulha nossos estômagos é a “Cerimônia“, que é o ato de abuso sexual das servas pelos chefes de cada casa, na presença de suas esposas!!! Com a desculpa de ser um ritual religioso e não uma traição ao matrimônio, a esposa deve sentar na cama, com a serva deitada com a cabeça em sua barriga para que, então, o marido chegue e realize o ato sexual perante sua mulher. B-I-Z-A-R-R-O E D-E-S-U-M-A-N-O!

É uma série perturbadora mas considerada a melhor do ano, por muitos! Resumo feito, vamos ao tema central deste post, como esta série totalmente psicológica se utilizou da trilha sonora para colaborar e se aprimorar no quesito “série brilhantemente perturbadora”. Vou analisar alguns momentos impactantes com o auxilio musical, junto com explicações do produtor musical da série, Michael Perlmutter.

Episódio 2: Don’t You (Forget About Me) – Simple Minds

Esse momento é quando temos a primeira música de impacto na cena final. Ofred fica sabendo de um grupo que resiste através de Ofglen e está toda felizinha. Ela saindo da casa dos Waterford com esse sentimento tem uma relação com a cena do filme “The Breaksfast Club“, que tornou famosa a canção “Don’t You (Forget About Me)” – de quando os alunos saem da detenção e estão livres. É um sentimento similar ao que Offred acredita estar vivendo, até que…. “fuck“, uma nova Ofglen aparece.

Episódio 3: “Waiting for Something” – Jay Reatard

Após terem descoberto que Ofglen era casada com uma mulher, ambas são pegas. Enquanto a esposa de Ofglen é enforcada, a atriz de “Gilmore Girls” tem suas genitálias mutiladas! Ela ainda pode engravidar, mas não sentir prazer. É um episódio muito forte no seu todo, mas essa cena final é de partir o coração e ao mesmo tempo te faz querer explodir, o que a música escolhida faz pela personagem e por nós.

Perlmutter diz “Nós queríamos apoiar o que Alexis (Ofglen) estava fazendo e não roubar a cena. Acho que funcionou porque você pode realmente sentir o que está se passando em seu interior. É a trilha sonora de dentro do seu intestino, do seu coração e da sua cabeça”.

Episódio 7: “Nothing’s Gonna Hurt You Baby” – Cigarettes After Sex

Logo após June descobrir que Luke, seu marido, está vivo, ela o escreve uma carta. Ao receber o recado, é um momento muito impactante para ambos e para a série, pois conecta o antes com o agora e o sentimento de esperança renasce. Você sente a ligação entre Luke lendo e a voz de June revelando as palavras, você sente que eles estão falando um com o outro e a música reflete essa mistura de melancolia e esperança.

Episódio 8: Caixinha de música

Offred acaba engravidando (será de Fred ou Nick?) e recebe um presente de Serena, a Sra. Waterford. Ela diz que tinha aquela caixinha de música de bailarina desde criança e achou que a serva gostaria, uma tentativa de amistosidade – lembrando que Serena é uma personagem complexa, que esconde seus verdadeiros sentimentos tentando manter a compostura diante desta nova realidade, então não foi um presente por pura bondade, né. É bem interessante a analogia que June faz a partir do presente, enquanto escreve “Você não está sozinha” no closet do quarto para uma possível próxima serva.

“Presente perfeito. Uma garota presa em uma caixa. Ela só pode dançar quando alguém abre a tampa, quando alguém lhe dá corda”.

Episódio 10: Feeling Good – Nina Simone

No episódio 9, Ofwarren ameaça pular da ponte com sua criança, o que ela acaba fazendo, sem levar o bebê junto. Mas a moça sobrevive e o castigo de tia Lydia no episódio 10 acaba com as servas desafiando seu poder, unidas. Elas deveriam apedrejar Ofwarren, mas se recusam e largam as pedras – drop the mic. Esse momento de união e rebelião das handmaid’s é de arrepiar! Ainda mais ao som de “Feeling Good“, que encaixa como uma luva na cena!

 

The Handmaid’s Tale” é uma obra de arte tanto narrativamente falando, quanto visualmente (e, claro, musicalmente, como acabamos de mostrar). Super recomendo! Não deixe de prestar atenção em nenhuma música ao longo da série, pois a união de cenas e da trilha sonora ocorre magistralmente e torna o impacto desta distopia ainda mais profundo em quem assiste.

Até a próxima temporada!

Viver a vida com simpatia e bom humor é meu lema. Tenho 23 anos, amo cultura pop, sou viciada em séries, realities e sorvete. Leonina com os dois pés em peixes, sou muito emotiva sim. Quem quiser conhecer mais, só vem @ranycamara

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